“Será que tranquei a porta?”. A dúvida aparece, a pessoa retorna, confere a fechadura e segue o dia. Em outra situação, porém, o mesmo pensamento pode voltar repetidamente, provocar ansiedade e fazer com que a conferência seja realizada várias vezes até trazer uma sensação momentânea de alívio. Pensamentos e comportamentos repetitivos fazem parte de diferentes experiências humanas e, isoladamente, não significam a existência de um transtorno. Quando passam a provocar sofrimento, sensação de perda de controle ou prejuízos à rotina, entretanto, merecem atenção.
Compras, alimentação, jogos de azar, uso excessivo da internet e consumo de álcool e outras drogas estão entre comportamentos que podem assumir características compulsivas. Há ainda manifestações relacionadas à organização, limpeza e verificações repetidas. Embora possam compartilhar elementos como repetição e dificuldade de controle, essas situações não devem ser automaticamente confundidas com o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).
O psicólogo da Secretaria Municipal de Saúde (Semus) Heitor Magalhães explica que é preciso compreender o comportamento dentro da realidade de cada pessoa antes de classificá-lo como patológico. “Nem todo comportamento repetitivo é TOC. A compulsão está relacionada a comportamentos que se repetem e que podem trazer algum tipo de alívio para uma tensão. Já no TOC existe também a obsessão, que corresponde às ideias, pensamentos ou imagens recorrentes. É preciso avaliar como isso se apresenta, com que intensidade ocorre e o quanto interfere na vida da pessoa”, explica.
Entre o pensamento e o comportamento
O Ministério da Saúde descreve as obsessões como pensamentos, ideias ou imagens persistentes e indesejadas e as compulsões como comportamentos ou rituais repetitivos utilizados para diminuir o desconforto ou a ansiedade. Entre as manifestações possíveis estão verificações frequentes, lavagem excessiva das mãos, reorganização constante de objetos e repetições mentais.
Pensamentos intrusivos também podem envolver conteúdos que provocam medo, culpa ou vergonha justamente porque são contrários ao que a pessoa deseja. Segundo o psicólogo, a presença desses pensamentos não significa, isoladamente, que a pessoa queira realizá-los ou que exista necessariamente um transtorno mental.
“O sinal de atenção aparece quando isso começa a causar sofrimento ou limitar a vida. É importante observar a frequência, a intensidade, quanto tempo aquilo ocupa e o impacto causado. Se uma pessoa, por exemplo, deixa de manusear facas porque tem medo constante de se machucar, já existe uma limitação que precisa ser compreendida”, pontua.
Compulsões podem aparecer de diferentes formas
A programadora de Tecnologia da Informação Ádria Almeida convive desde a infância com episódios de compulsão alimentar. Para ela, a comida passou a ser associada tanto aos momentos de celebração quanto ao enfrentamento de períodos de ansiedade. “Eu me acostumei a associar celebrações e felicidade à comida. Sempre que tinha a oportunidade de comer algo gostoso que não fazia parte da minha rotina, comia até o estômago doer e quase vomitar. Se não atingisse esse ponto, sentia que estava jogando dinheiro fora e que não estava aproveitando a comida o suficiente”, relata.
Com a independência financeira, o comportamento ganhou outras proporções. “Comecei a gastar quase todo o meu salário com fast-food para satisfazer o vazio que sentia diariamente. Em episódios mais graves de ansiedade, a comida nem precisava ser gostosa. Eu apenas precisava continuar comendo até sentir que a ansiedade havia diminuído.”
Hoje, Ádria conta que consegue reconhecer melhor esses episódios e controlar parte dos comportamentos, embora ainda enfrente dificuldades principalmente em ambientes de celebração envolvendo comida.
É possível recuperar a rotina
Para Heitor, procurar ajuda não precisa depender de a pessoa conseguir identificar sozinha se o que vivencia é TOC, outra condição ou mesmo uma reação relacionada a determinado momento da vida. O papel da avaliação profissional é justamente compreender o conjunto de sinais, a frequência, a intensidade e os prejuízos associados. “Para configurar um transtorno, precisamos observar o quanto aquilo afeta e interfere na vida da pessoa. Quando ela percebe que o comportamento está trazendo sofrimento ou impedindo atividades que antes conseguia realizar, é importante procurar ajuda”, orienta.
O psicólogo destaca ainda que o tratamento pode reduzir significativamente os sintomas e permitir a retomada da qualidade de vida. “Com acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico, a pessoa pode alcançar remissão dos sintomas e recuperar aspectos da própria rotina e de quem ela sente que era antes. O objetivo é reduzir o sofrimento e fazer com que esses comportamentos deixem de ocupar um espaço tão grande na vida.”
O tratamento do TOC pode envolver psicoterapia e, conforme avaliação profissional, medicamentos. O Ministério da Saúde aponta que o acompanhamento adequado pode reduzir consideravelmente pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos, favorecendo a recuperação do bem-estar e da qualidade de vida.
Onde buscar atendimento
No Sistema Único de Saúde (SUS), as Unidades de Saúde da Família (USFs) são a porta de entrada preferencial para acolhimento e acompanhamento em saúde mental e, quando necessário, podem encaminhar o usuário para outros serviços da rede. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) também oferecem acolhimento e acompanhamento especializado às pessoas em sofrimento psíquico. Já em situações que necessitem de atendimento imediato, a população pode procurar as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) ou, em casos de emergência, acionar o Samu pelo número 192.
